Crônica | Flor de Ipê
Quando eu era criança, amava o caminho para a escola, pois passava por casas amplas, bem cuidadas. Uma em especial me chamava atenção. Era parecida com as outras, mas com uma característica que a diferenciava das demais e a tornava especial.
No seu vasto jardim crescia uma frondosa árvore que se esparramava pela calçada afora.
Um majestoso ipê amarelo carinhosamente derramava suas flores para quem passasse por ali caminhar naquele tapete de amarelo macio e suave que acariciava os pés e a alma.
Tinha vontade de tirar os sapatos e sentir as flores amarelas roçarem meus dedos, meu calcanhar, a planta dos pés, quem sabe talvez repousar naquele caminho fascinante.
Ouso dizer que são das minhas melhores memórias daquele tempo. Uma pausa diária para apreciar a paz e a calma que me proporcionavam o tapete amarelo com aquelas flores delicadas.
Me apaixonei pelos ipês amarelos que insistiam em estar presentes pelos caminhos por onde eu andava, seja visto de longe pela janela de um ônibus ou carro durante minhas viagens por estradas cercadas pela exuberante Mata Atlântica, seja apreciada de pertinho por calçadas encantadas de alguma cidade por onde passei.
Há alguns anos atrás ouvi uma história da qual nunca esqueci.
“Quando o Criador decidiu criar a Terra, pensou em fazer do Brasil um lugar florido e cheio de cores. Criou uma porção de flores e árvores de todo tipo para todos ambientes.
Como era magnânimo, levava em consideração a vontade das plantas e deixou que elas escolhessem as estações nas quais elas desejavam florescer. Umas escolheram o verão, outras tantas escolheram a primavera e algumas poucas decidiram florescer no outono.
O Criador percebeu a preferência que as mais exuberantes tinham pela primavera e o verão, estações mais calorosas, o outono com seus dias claros e temperaturas amenas também foi escolhido, mas nada de escolherem o inverno e seus dias frios.
Entristecido, o Criador, que era democrático, justo e bom, foi aquiescendo diante das escolhas, mas respeitou a todas.
O ipê que a tudo observava de longe, posto que era introspectivo e um pouco tímido, vendo a tristeza que se abateu sobre o Digníssimo, se apresentou e decidiu que no inverno seria ele a florir.
O Todo Poderoso, encantado pela escolha do singelo ipê sentiu seu coração se preencher de gratidão e para transbordar essa felicidade, deu ao ipê várias cores diferentes e lhe fez altivo e majestoso, a sua imagem e semelhança divinal, além de valente para resistir ao frio e a seca, pintando suas flores de amarelo, roxo e branco.”
Diante disso, passei a amar mais ainda essa frondosa e exuberante maravilha da natureza. Sejamos ipês! Vamos florescer mesmo diante das adversidades.

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