Uma história com Dercy
Muito tem se falado ultimamente de Dercy Gonçalves, essa atriz genial que nos deixou em 2008, mas continua sendo extremamente atual e de uma sabedoria e despudor que fazem falta nos dias de hoje. Páginas nas redes sociais nos trazem de volta cenas de filmes, entrevistas, shows e entrevistas em que seu humor e seus princípios vem nos mostram a grandiosidade dessa figura ímpar da cultura brasileira.
Fico lembrando daquela Dercy com a qual eu convivi por alguns anos, trabalhando no seu espetáculo Uma lição de Vida no alto de seus noventa anos e que a seu modo era muito cuidadosa com todos a sua volta.
Eu sempre fui de me alimentar de maneira muito frugal e ela implicava demais comigo por isso, sempre gostou de fartura e não entendia quando uma salada de palmito me deixava satisfeita.
Em meados de 1998, em meio a muito trabalho e muitas viagens com o espetáculo, eu engravidei de minha primeira filha e em meio a correria do trabalho não contei a ninguém antes de contar pessoalmente para minha mãe. E com ela morando em São Paulo e eu no Rio de Janeiro e viajando por todo Brasil com a temporada que era um mega sucesso, foram se passando os meses e nada das outras pessoas ficarem sabendo.
Como demorei muito para engordar, todos só foram perceber lá pelo sexto mês a minha gravidez.
Mas Dercy, que tudo percebia, com seu olhar astuto, viu que meu apetite havia se modificado e eu estava com mais vontade de comer, por vezes bem faminta, principalmente quando em Cabo Frio eu dei “cabo”, desculpem o trocadilho, a um pirão de peixe admirável e um peixe assado inteirinho.

Não sei porque cargas d’água, ela achou que eu estivesse passando por necessidades financeiras e estava sem ter comida em casa.
Sem me falar nada ela começou a me chamar todos os dias para reunião em sua casa na hora do almoço. Cada dia com uma desculpa diferente, coisas tolas e sem importância. Eu não entendia porque, mas no meio da conversa ela ia pra cozinha, fazia um prato e me obrigava a almoçar, carne assada, leitão a pururuca e toda série de comidas gordurosas e apimentadas, que eu comia para não fazer desfeita. Sempre fui mais “natureba”.
Quando fomos para São Paulo fazer espetáculo no Tom Brasil, já próximo dos meus cinco meses de gestação, eu finalmente contei para minha mãe e consequentemente para a Dercy e todos da equipe.
Ela olhou bem pra mim e soltou:
“Filha da puta, então é por isso!!!!!!! Eu achei que você estava passando fome e tive que ficar te chamando esse tempo todo pra almoçar. Filha da puta!!!!!!!”
E começamos a rir muito do equívoco e ela passou a me sacanear horrores durante o espetáculo, em que havia uma passagem sobre gravidez. Além disso, fazia questão de frisar como a família era a coisa mais importante que a gente tem na vida.
Essa era Dercy, você aprendia a amá-la ou odiá-la, mas era impossível lhe ser indiferente.
Quanto aprendizado, quanta sabedoria, quanta falta ela me faz.
Saudades, Dercy!

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